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Indignação no tempo da informação

Atualizado: 24 de mai.

Deixem-me partilhar uma pequena história que aconteceu no início de 2022 quando a Junta de Freguesia de Campo de Ourique, decidiu mudar a sua identidade visual.





Há já uns anos que a identidade da Freguesia consistia numa forma geométrica preenchida a vermelho que não contêm um significado aparente para além do propósito identificativo e que foi introduzido com a Reorganização Administrativa de Lisboa em 2012, isto é, a fusão das juntas de freguesia, que no caso de Campo de Ourique resultou da união das freguesias de Santa Isabel e Santo Condestável.


Anterior a esta reorganização, as freguesias usavam um conjunto de símbolos heráldicos, principalmente brasões e bandeiras, carregados de história e simbolismo religioso e militar.



A partir dessa altura as várias e novas freguesias de Lisboa decidiram ter uma identidade própria para romper com o passado e com o peso institucional que os brasões atribuíam aos órgãos governativos, não só numa tentativa de modernização, mas também com a finalidade de aproximar a governação do povo. Por isso deixámos de ver armas e brasões e passamos a ver um design de identidade moderno, mais consciente, que tem sido atualizado ao ritmo de eleições, possivelmente porque cada novo governante quer deixar a sua marca e curiosamente escolhem fazê-lo através da constante mudança da identidade da freguesia que governam.


Não tenho nada contra isso, até porque essa mudança dá trabalho à minha classe profissional ... em teoria …


Voltando a Campo de Ourique - as redes sociais da Junta começaram a ser inundadas com imagens que refletiam diferentes estudos que se propunham a ser a nova identidade da Freguesia. Estas foram as 3 propostas apresentadas:



Percebem a simbologia? Compreendem o seu significado ou origem?


Eu não gosto de criticar o trabalho de outros designers porque sei que o processo de criação de identidade é por norma complicado e há tantos twists que nem sempre o resultado final espelha a melhor intenção do profissional ou a melhor fase da construção do projeto. Criticar é fácil e dizer que algo não presta quando o trabalho está feito é injusto. É falar sem conhecimento.


No entanto esta profissão, por não ser uma ciência exacta, é alvo de constantes achismos. E para quem não sabe o que é um achismo…


achismo (a·chis·mo)

nome masculino

[Informal] 

Exposição, argumentação ou conjunto de ideias que se baseia apenas na subjectividade, na opinião pessoal.


Ora a palavra do designer não é absoluta, nunca foi e nunca será, e um achismo está longe de ser um estudo de mercado. 


Decidi contactar a Junta e alertar que o que estavam a fazer era um erro e cheguei a enumerar alguns aspetos que ditavam a morte das propostas logo à nascença. Falta de leitura, futuros problemas de implementação, simbologia, direitos de imagem, uma série de argumentos que qualquer profissional está apto a assinalar numa fase inicial do projeto. Cheguei inclusive a falar com o Presidente da Junta de Freguesia, que no alto do seu incrível conhecimento na construção de marcas, menosprezou os meus conselhos e continuou feliz na sua ignorância (inocente, espero) e sentido de missão para construir uma herança que irá sobreviver ao seu tempo de governação.


Deu para perceber que foi um trabalho interno.


A futura identidade de Campo de Ourique não foi desenhada por um profissional, mas por um “jeitoso” munido de um qualquer programa amador de imagem, um conjunto de cliparts e um saco de achismos.


O resultado final chegou a ser ligeiramente diferente do que foi apresentado ao povo.

Sim, as propostas foram apresentadas na rua, com direito a votação.


Para quem não percebe a simbologia - o elemento central pretende ser o chapéu e óculos do poeta Fernando Pessoa. Compreendo a ligação do poeta à freguesia pois foi onde viveu os últimos 15 anos da sua vida. Já as árvores que compõem a restante ilustração (à falta de melhor termo) são supostamente as árvores da Rua Ferreira Borges, uma das principais artérias de Campo de Ourique.


Por onde começar? Precisaria escrever um documento com mais de 100 páginas para enumerar todos os erros aqui presentes. Vou enumerar os mais gritantes a nível conceptual.


Se tivermos de atribuir uma localização geográfica que represente Fernando Pessoa, o primeiro lugar que nos ocorre é o Chiado, como é óbvio. Campo de Ourique não é detentor do espólio geo-localizador do protagonista, mesmo que a sua história em determinada altura se cruze com a freguesia. As árvores por sua vez, poderiam ser, por exemplo, as da Rua Passos Manuel, ou da Rua Pascoal de Melo ou da Rua Luciano Cordeiro, só para mencionar algumas ruas de Lisboa que têm árvores de ambos os lados da rua. Por essa razão a iconografia, além de mal escolhida e pessimamente mal aplicada, não caracteriza exclusivamente a freguesia de Campo de Ourique.


Há mais para dizer sobre isto, mas não vou gastar nem tempo nem energia a fazê-lo. Na altura preferi exorcizar os meus demónios e desenhar algo que seria uma melhor opção para servir de identidade a este maravilhoso bairro.


A (possível) solução


Há uma razão pela qual monumentos ou património arquitetónico são escolhidos para serem parte integrante da identidade neste tipo de projetos. Estão localizados e são ícones da freguesia! Se há um património visual que possa identificar um determinado local, usa-se esse património visual. É um caminho comum, não é único, mas é comum. 


Por essa razão fui à procura de elementos visuais imutáveis, que são e continuarão a ser característicos únicos desta freguesia. E não foi difícil encontrar uma mão cheia deles - o geo-monumento Aqui foi mar na rua Sampaio Bruno, o Mercado De Campo de Ourique, as Igrejas de Santo Isabel e do Santo Condestável, o Jardim da Parada, ou a escultura do antigo cinema Europa, aproveitado para novo edifício de habitação. Estes elementos são visualmente fortes e inegavelmente característicos da freguesia. Nem todos são fantásticos para comporem uma identidade visual, isso já é outra questão, mas dá para entender onde quero chegar.


Temos de decidir um caminho, em oposição a vários misturados numa salada de elementos gráficos, e resolvi escolher a Igreja do Santo Condestável, nomeadamente os torreões da igreja por serem um dos elementos arquitetônicos mais característicos e representativos do monumento.



A minha abordagem e intenção foi a de ir para lá da ilustração, que cheguei a concretizar de forma simplificada, e também fugir à componente religiosa, que é um pouco difícil dado tratar-se de uma igreja que estou a tentar representar. Mas foi aqui que tive a ideia de adicionar valor à identidade, mesmo antes da mesma estar desenhada. 




Escolhi uma tipografia que ajuda a representar o torreão e que funciona às mil maravilhas na construção da identidade. Não foi a primeira escolha, ainda andei à procura de alguma personalidade, mas encontrei essa característica nesta Parking regular da ATIPO Foundry que tinha adquirido no meio de um pack promocional uns dias antes. Depois, como se adiciona o valor? Literalmente substitui-se a cruz por um sinal de mais (+). Coloca-se o mais em cima do A que se assemelha a um dos torreões, confere-se a expressão mais equilibrada aos vários elementos e após alguns testes, temos algo que se assemelha a uma identidade, sem problemas de leitura, que consegue ser implementada em vários suportes sem a tornar irreconhecível.




Mantive o vermelho como cor na identidade, é uma cor forte, quente, emotiva que consegue representar o dinamismo de um bairro dinâmico.


E completa-se o conceito com a frase mais bairro. Porque Campo de Ourique é mais bairro, mais cultura, mais comércio, mais restauração, mais desporto.


Não demorei mais do que 1 hora para concretizar uma ideia que até faz algum sentido e com um conceito agregado. Mas demorei cerca de 25 anos para conseguir fazer algo assim em 1 hora. 





É uma proposta à prova de bala?


Não, não é. Precisa ser testada. São necessárias revisões que são impossíveis serem feitas em apenas uma hora. Necessita ser criado um manual de normas gráficas que protege a marca contra imprevistos e má implementação. É necessário a criação de um universo gráfico que torne a marca reconhecível, mesmo quando não está presente. É necessária uma pré apresentação a um focus group para avaliar reações, para apalpar terreno, que poderão ser ou não válidas, mas é necessário um trabalho mais aprofundado e feito por quem o sabe fazer, por quem tem formação para o fazer.


Não é o único caminho. Segui uma via comum, como referi anteriormente.

Há outros caminhos possíveis, mais abstratos ou conceptuais. 10 Designers chegarão a 10 soluções diferentes, é esta a maravilha do Design de Identidade.

Obrigado por chegares ao final deste artigo e vemo-nos no próximo?



 



 

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